"Minha mãe era uma pessoa silenciosa, capaz de dissimular-se entre os
móveis, de perder-se no desenho do tapete, de não fazer o menor ruído,
como se não existisse; contudo, na intimidade do quarto que dividíamos,
ela se transformava. Começava a falar do passado ou a narrar suas
histórias, e então o aposento se enchia de luz, desapareciam as paredes,
dando lugar a incríveis paisagens, palácios abarrotados de objetos
nunca vistos, países longínquos inventados por ela ou tirados da
biblioteca do patrão; colocava a meus pés todos os tesouros do Oriente, a
lua e mais ainda. reduzia-me ao tamanho de uma formiga, para eu sentir o
universo a partir da minha pequenez, punha-me asas para vê-lo a partir
do firmamento, dava-me uma cauda de peixe para conhecer o fundo do mar."
