sábado, 29 de outubro de 2011

Ex Libris

Michelle Duckworth

Selva Selvaggia - Millor Fernandes

De repente um terror me sacode, penetrei distraído e sinto que estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática cai em zonas praticamente intransponíveis, sem querer me entregar ao medo eu vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos, caio no areal dos solipsismos e redundâncias esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento essencial. Porém hibridismos me barram o caminho, ensurdecido por rotacismos e lambdacismos ao arranhar prol orações anfibológicas recuo para cair no terrível situar da regência, de onde raros escapam com vida…
Galhos de corruptelas me cortam o rosto enquanto sufoco com os cheiros dos defectivos, ponho o pé no nome próprio que eu acho seguro, mas, logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga me protejo com uma próclise evitando duas espantosas desóclipses e aproveito o advérbio de negação para atrair 3 pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras, estou esgotado, felizmente surge a clareira de um parágrafo… Avanço abrindo parênteses onde enfio arcaismos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes, uma silepse me espera mais a frente, desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopeia e sou envolvido por odiosas ressonâncias verbais, descanso sobre reticências, quando ouço o tam-tam das interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipses apocopes, escapo pela picada do eufemismo paru para respirar no fim de um período simples, avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófagos e esbarro em cacografias empurro cacologias me arrasto pela cacoeteira estou sufocado de exaustão diante de uma centena de substantivos promíscuos já desespero quando vejo um lugar-comum e chego ao ponto final


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uemura Shoen


Walt Whitman

Eu penso que poderia retornar e viver com animais, tão plácidos e autocontidos; eu paro e me ponho a observá-los longamente. Eles não se exaurem e gemem sobre a sua condição; eles não se deitam despertos no escuro e choram pelos seus pecados; eles não me deixam nauseado discutindo o seu dever perante Deus. Nenhum deles é insatisfeito, nenhum enlouquecido pela mania de possuir coisas; nenhum se ajoelha para o outro, nem para os que viveram há milhares de anos; nenhum deles é respeitável ou infeliz em todo o mundo. 






quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Phantom Water Edit by Chris Bryan


PHANTOM WATER EDIT from Chris Bryan on Vimeo.

Isabel Allende

"Minha mãe era uma pessoa silenciosa, capaz de dissimular-se entre os móveis, de perder-se no desenho do tapete, de não fazer o menor ruído, como se não existisse; contudo, na intimidade do quarto que dividíamos, ela se transformava. Começava a falar do passado ou a narrar suas histórias, e então o aposento se enchia de luz, desapareciam as paredes, dando lugar a incríveis paisagens, palácios abarrotados de objetos nunca vistos, países longínquos inventados por ela ou tirados da biblioteca do patrão; colocava a meus pés todos os tesouros do Oriente, a lua e mais ainda. reduzia-me ao tamanho de uma formiga, para eu sentir o universo a partir da minha pequenez, punha-me asas para vê-lo a partir do firmamento, dava-me uma cauda de peixe para conhecer o fundo do mar." 


terça-feira, 25 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nazca - Peru


Água Viva - Clarice Lispector

Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. Para me interpretar e formular-me preciso de novos sinais e articulações novas em formas que se localizem aquém e além da minha história humana. Transfiguro a realidade e então outra realidade, sonhadora e sonâmbula, me cria. E eu inteira rolo e à medida que rolo no chão vou me acrescentando em folhas, eu, obra anônima de uma realidade anônima só justificável enquanto dura a minha vida. E depois? depois tudo o que vivi será de um pobre supérfluo. Mas por enquanto estou no meio do que grita e pulula. E é sutil como a realidade mais intangível. Por enquanto o tempo é quanto dura um pensamento."  


domingo, 23 de outubro de 2011

Father and Daughter

Manoel de Barros - Retrato do artista quando coisa

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.



Attilio Baccani -Italia, 1844-1889


Alberto Caeiro

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...


sábado, 22 de outubro de 2011

Millor Fernandes

"Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Pelo mundo que temos, parece que o melhor mesmo ainda é a caligrafia."


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Midnight Sun | Iceland


Midnight Sun | Iceland from SCIENTIFANTASTIC on Vimeo.

Perspectivas


O Apanhador de Desperdícios - Manoel de Barros


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.



domingo, 16 de outubro de 2011

Millor Fernandes

Incapaz de dominar suas mais mesquinhas paixões, sem controle do próprio egoísmo, tolo, tonto, sofrido,  inseguro e criminoso, o homem lança suas derradeiras ambições para a posteridade, quando será imantado numa glória a que não assistirá, mitificado naquilo que nunca foi. E sua ânsia de nobreza é colocada em ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa toda a estupidez de sua natureza.


change the world

Tamanho não é Documento


sábado, 15 de outubro de 2011

Vinte mil léguas submarinas (1870) - Julio Verne

(...) "A refeição era composta por pratos de origem marinha e de outras iguarias cuja natureza e origem eu ignorava completamente. Eram todos bons, embora tivessem um sabor estranho. No entanto, habituei-me com facilidade a ele.
Para não fazermos toda a refeição em silêncio, provoquei-o com o seu assunto predileto:
- O capitão ama o mar - falei-lhe.
- Sim, amo-o. O mar é tudo. Cobre sete décimos do globo terrestre. O seu hálito é são e puro. É um imenso deserto onde o homem nunca está só. O mar é o veículo de uma existência sobrenatural e prodigiosa. É movimento e amor. É o infinito vivo, como afirmou um dos seus poetas. Nele reina a suprema tranqüilidade. O mar não pertence aos déspotas. Ah! o senhor professor deveria viver no seio dos mares! Só aí há independência. Aí não reconheço amos! Sou livre!"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ivan Lessa - A Crônica

Crônica, do grego chrónos, tempo, cronicar, feito Tácito, relatar o tempo ou tempos. Por que nós, brasileiros, fizemos do gênero especialidade da casa — feito muqueca de peixe ou tutu à mineira? Eu, pela parte que me cabe — e é pouquíssima a parte que me cabe —, eu tenho minhas teoriazinhas. Primeiro lugar, porque nós trabalhamos bem com poucas armas, isto é, Euclides da Cunha à parte, nosso fôlego literário é curto. Não há nenhum demérito nisso. Se a América Latina fornece caudalosos escritores, como Vargas Llosa, Roa Bastos e Alejo Carpentier, nós, por outro lado, somos excelentes no pinga-pinga do conto: o próprio Machado de Assis, Lima Barreto, Alcântara Machado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Rubem Fonseca. Segundo lugar, porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível. Terceiro lugar, em conseqüência disso que acabei de falar: somos muito pessoais, vemos e vivemos muito a nossa vida e a celebramos quase que no próprio instante em que ela se passa. A crônica é a nossa autobustificação, por assim dizer. Ou, em termos da realidade atual: é a nossa autonomeação para assessor disso ou secretário daquilo outro. E em quarto e último lugar: dinheiro. Não há motivo nenhum para se ficar encabulado. Quem não escreve por dinheiro não é digno da profissão. Um romance vende cinco mil exemplares e o autor, com alguma sorte, pega o equivalente a uns tantos salários mínimos. Se dividirmos tempo gasto no trabalho e na vida de estante do livro, vai dar nisso mesmo: salário mínimo. O cronista, por outro lado, mesmo mal pago — e quando é bom não é esse o caso —, tem uns cobres garantidos no fim do mês, se o empregador for bom pagador. Conseqüentemente: aí está, viva e atuante, a crônica do cronista brasileiro. Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro. Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador. E daí que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley? A crônica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Guillaume Delaunay


The Tadpole from Passion Pictures on Vimeo.

Vôo


Luis Fernando Veríssimo

Li que no Talmude existe a história dos 36 homens justos que salvam o mundo da destruição. Segundo a tradição mosaica, a cada momento determinado da História vivem na Terra 36 homens cuja retidão de caráter impede Deus de fechar a mão e nos aniquilar. Os 36 podem estar espalhados pelo planeta, não se conhecerem entre si e não conhecerem o seu próprio poder, mas sua existência e o seu comportamento decidem o nosso destino. Se não fosse pelos 36, Deus desistiria de nós. Por que 36? Não sei. Também não sei se há algum tipo de flexibilidade divina. Se Deus aceita, por exemplo, 35 éticos e um que, vá lá, passou a mão na empregada ou na caixa da firma, mas hoje está arrependido, ou se o Talmude esclarece esse ponto. O fato é que a simples sobrevivência da Humanidade, apesar de tudo que ela já aprontou, é prova de que há pelo menos 36 homens justos no mundo, neste momento. Deus os conhece. Deus os conta todos os dias. Mesmo quem não segue o Talmude só pode torcer para que esta conjunção mágica não se desfaça, que nunca faltem homens justos no mundo em número suficiente para evitar nossa destruição. O mesmo vale para o Congresso brasileiro: só a existência presumida de um mínimo de 36 exceções à mediocridade, à venalidade ou à canastrice explicaria que um raio ainda não tenha destruído as duas casas. Os presumidos 36 preservam a instituição e, mais importante, preservam nosso amor-próprio, pois maus congressos significam maus eleitores. Nenhum congressista brotou da sua cadeira, foram todos postos lá por um de nós, o povo. Os presumidos 36 nos redimem. Quem são eles? Deus os conhece. Deus os conta todos os dias. 


sábado, 8 de outubro de 2011

Diego Rivera


Adeus Doce França - José Lins do Rego

Volto hoje às minhas criaturas, aos rudes homens do cangaço, às mulheres, aos sertanejos castigados, às terras tostadas de sol e tintas de sangue, ao mundo fabuloso do meu romance, já no meio do caminho. Os dias de França me deram uma sensação de pausa, de espanto, de novos contactos sonhados desde menino. Vi terras por onde andaram os doze pares de França, os heróis do meu Carlos Magno, lido e relido como história de Trancoso. Vi terras do sul, o mar Mediterrâneo, o mar da história, o mar dos gregos, dos egípcios, dos fenícios, dos romanos. Mas o nordestino tinha que voltar à sua realidade, à realidade maior que a história do mundo, isto é, à história dos seus homens, dos cangaceiros brutais, carregados de vida bárbara, de instintos cruéis de uma força, porém, que não se extingue nunca, porque é a energia de uma raça de homens mais duros do que as pedras dos seus lajedos. Volto aos "Cangaceiros" e desde logo tudo o que vi e senti se refugia no fundo da sensibilidade, para que a narrativa corra, como em leito de rio que a estiagem secara, mas que as águas novas enchem, outra vez, de correntezas. Volto ao terrível Aparício que mata igual a um flagelo de Deus, ao monstruoso Negro Vicente, ao triste Bentinho, ao místico Domício, aos umbuzeiros carregados de frutos, aos mandacarus de floração de sangue, aos cantadores de estrada, às mulheres sofredoras, às noites de lua, aos tiroteios, ao crime e ao amor, à poesia barbaresca e vigorosa de um povo que é maior do que a terra que o criou. Volto contente e disposto a tudo. Adeus, doce França. Agora os espinhos me arranham o corpo e as tristezas me cortam a alma.


terça-feira, 4 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Edgar Degas

Goethe

Passa-se com os livros uma coisa semelhante ao que sucede com um novo conhecimento que travamos com alguém. Num primeiro momento experimentamos um profundo prazer em encontrar coincidências gerais de opinião ou ao sentirmo-nos tocados num aspecto importante da nossa existência. Só depois, quando o conhecimento se aprofunda, começam a surgir as diferenças. Nessa altura, o comportamento inteligente caracteriza-se pela capacidade de não retroceder imediatamente, como muitas vezes acontece na juventude, e de pelo contrário reter o que há de coincidente enquanto se vão esclarecendo mutuamente todas as diferenças, sem se pretender chegar a acordo absoluto.