domingo, 24 de julho de 2011

Um Sopro de Vida - Clarice Lispector

   (...) Hoje matei um mosquito. Com a mais bruta das delicadezas. Por quê? Por que matar o que vive? Sin­to-me uma assassina e uma culpada. E nunca mais vou esquecer esse mosquito. Cujo destino eu tracei. A gran­de matadora. Eu, como um guindaste, a lidar com um delicadíssimo átomo. Me perdoe, mosquitinho, me per­doe, não faço mais isso. Acho que devemos fazer coisa proibida — senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.
          Eu sou o meu próprio espelho. E vivo de achados e perdidos. É o que me salva. Estou metida numa guer­ra invisível entre perigos. Quem vence? Eu sempre perco.