sábado, 17 de dezembro de 2011

Vinícius de Morais


Rubem Alves

"Não podendo ser pássaros, as árvores dão flores. Flores são os pássaros das árvores. Flores são vôos que não conseguiram voar e se cristalizaram em beleza e perfume. Quem dá uma flor a alguém está lhe dando um desejo de voar." 


sábado, 10 de dezembro de 2011

Para pintar o retrato de um pássaro - Jacques Prévert,

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.
 
PRÉVERT, Jacques. Poemas de Jacques Prévert. Tradução de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.


Kim Baker

Time-Lapse of Chaotic Traffic in Ho Chi Minh City, Vietnam


Traffic in Frenetic HCMC, Vietnam from Rob Whitworth on Vimeo.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Orestes Pursued by the Furies (1921) - John Singer Sargent


Definitivo - Carlos Drummond de Andrade

Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.



sábado, 19 de novembro de 2011

Afghanistan – touch down in flight by Augustin Pictures


Afghanistan – touch down in flight from Augustin Pictures on Vimeo.

Vôo em Pausa


Aldous Huxley

"Todo pássaro que aprendeu a esgravetar uma boa porção de vermes sem ser compelido a voar ficará para sempre na terra. Algo de análogo passa com os seres humanos. Se o pão lhes é oferecido regular e copiosamente três vezes ao dia, muitos deles contentar-se-ão perfeitamente vivendo apenas de pão - ou pelo menos, de pão e de espetáculos de circo..."


sexta-feira, 18 de novembro de 2011


Corujas

Elogio do Esquecimento - Bertold Brecht

Bom é o esquecimento!
Senão como se afastaria o filho
da mãe que o amamentou?
Que lhe deu a força dos membros
e o impede de experimentá-la.

Ou como deixaria o aluno
o professor que lhe deu o saber?
Quando o saber está dado
o aluno tem de se pôr a caminho.

Para a velha casa
mudam-se os novos moradores.
Se os que a construíram ainda lá vivessem
a casa seria pequena demais.

O forno esquenta. Já não se sabe
quem foi o oleiro. O plantador
não reconhece o pão.

Como se levantaria pela manhã o homem
sem o deslembrar da noite que desfaz o rastro?
Como se ergueria pela sétima vez
aquele derrubado seis vezes
para lavrar o chão pedregoso, voar
o céu perigoso?

A fraqueza da memória
dá força ao homem.

Angelo Franco

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Planet Earth seen from space

Street art


Sobre o Ouvir - Rubens Alves



O ato de ouvir exige humildade de quem ouve. E a humildade está nisso: saber, não com a cabeça mas com o coração, que é possível que o outro veja mundos que nós não vemos. Mas isso, admitir que o outro vê coisas que nós não vemos, implica reconhecer que somos meio cegos… Vemos pouco, vemos torto, vemos errado. Bernardo Soares diz que aquilo que vemos é aquilo que somos. Assim, para sair do círculo fechado de nós mesmos, em que só vemos nosso próprio rosto refletido nas coisas, é preciso que nos coloquemos fora de nós mesmos. Não somos os umbigo do mundo. E isso é muito difícil: reconhecer que não somos o umbigo do mundo! Para se ouvir de verdade, isso é, para nos colocarmos dentro do mundo do outro, é preciso colocar entre parentêsis, ainda que provisoriamente as nossas opiniões. Minhas opiniões! É claro que eu acredito que as minhas opiniões são a expressão da verdade. Se eu não acreditasse na verdade daquilo que penso, trocaria meus pensamentos por outros. E se falo é para fazer com que aquele que me ouve acredite em mim, troque os seus pensamentos pelos meus. É norma de boa educação ficar em silêncio enquanto o outro fala. Mas esse silêncio não é verdadeiro. É apenas um tempo de espera: estou esperando que ele termine de falar para que eu,então, diga a verdade. A prova disto  está no seguinte: se levo a sério o que o outro está dizendo, que é diferente do que penso, depois de terminada a sua fala eu ficaria em silêncio, para ruminar aquilo que ele disse, que me é estranho. Mas isso jamais acontece. A resposta vem sempre rápida e imediata. A resposta rápida quer dizer: “Não preciso ouvi-lo. Basta que eu me ouça a mim mesmo. Não vou perder tempo ruminando o que você disse. Aquilo que você disse não é o que eu diria, portanto está errado…”


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Willian Blake - Newton


O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

Palavras! Simples palavras! Mas como elas eram terríveis! Como eram claras, expressivas e cruéis! Não se podia escapar delas. Entretanto, que magia sutíl traziam em si! Pareciam capazes de conferir plasticidade a coisas disformes e de ter uma música própria doce como a do violino ou do alaúde. Meras palavras! Haveria algo mais real do que as palavras?



IRIDIUM by Murray Fredericks


IRIDIUM from Murray Fredericks on Vimeo.

Fernando Pessoa

"A vida é breve; a alma é vasta."


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Catherine Ducreux


Thought of You - Ryan J Woodward


Thought of You from Ryan J Woodward on Vimeo.

Mrs. Dalloway - Virginia Woolf

"Por breves que fossem os seus reais encontros, breves, acidentados, e até constrangedores, com todas as ausências e interrupções, o efeito que haviam tido na vida dela era, de fato, incomensurável. Havia um mistério naquilo. Recebia-se uma dura, amarga, desagradável semente mas eis que, nos mais imprevistos lugares, aquilo floria, abria-se, aromava, deixava-se tocar, depois de jazer longos anos perdidos."

terça-feira, 1 de novembro de 2011

E Por Falar em Ladrão de Galinhas - Luis Fernando Veríssimo


"Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e
levaram para a delegacia.
- Que vida mansa, heim, vagabundo ? Roubando galinha para ter o que
comer sem precisar trabalhar. Vai para cadeia!
- Não era para mim não. Era para vender.
- Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio
estabelecido. Sem-vergonha!
- Mas eu vendia mais caro.
- Mais caro?
- Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as
minhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as
minhas botavam ovos marrons.
- Mas eram as mesmas galinhas, safado.
- Os ovos das minhas eu pintava.
- Que grande pilantra...
Mas já havia um certo respeito no tom do delegado.
- Ainda bem que tu vai preso. Se o dono do galinheiro te pega...
- Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais
boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços
dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos
de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio.
Ou, no caso, um ovigopólio.
- E o que você faz com o lucro do seu negócio?
- Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei
alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no
suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e
superfaturo os preços.
O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a
cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois
perguntou:
- Doutor, não me leve a mal, mas com tudo isso, o senhor não está
milionário?
- Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que
tenho depositado ilegalmente no exterior.
- E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?
- Às vezes. Sabe como é.
- Não sei não, excelência. Me explique.
- É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa.
Do risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma
coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me
sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso,
finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.
- O que e isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.
- Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!
- Sim. Mas primário, e com esses antecedentes..."


sábado, 29 de outubro de 2011

Ex Libris

Michelle Duckworth

Selva Selvaggia - Millor Fernandes

De repente um terror me sacode, penetrei distraído e sinto que estou perdido na terrível floresta da linguagem. Ignorando a estrada sintática cai em zonas praticamente intransponíveis, sem querer me entregar ao medo eu vou tropeçando em anglicismos, latinismos, barbarismos e idiotismos de linguagem, quando ouço o silvar de vocábulos paragógicos, caio no areal dos solipsismos e redundâncias esmagando um horrendo pleonasmo, escorregando em sinistras hipérboles agarro-me a um verbo auxiliar e a um complemento essencial. Porém hibridismos me barram o caminho, ensurdecido por rotacismos e lambdacismos ao arranhar prol orações anfibológicas recuo para cair no terrível situar da regência, de onde raros escapam com vida…
Galhos de corruptelas me cortam o rosto enquanto sufoco com os cheiros dos defectivos, ponho o pé no nome próprio que eu acho seguro, mas, logo seis substantivos deverbais saltam sobre mim. Não tendo fuga me protejo com uma próclise evitando duas espantosas desóclipses e aproveito o advérbio de negação para atrair 3 pronomes relativos colocados em posições ameaçadoras, estou esgotado, felizmente surge a clareira de um parágrafo… Avanço abrindo parênteses onde enfio arcaismos, anacronismos, expressões chulas e ambivalentes, uma silepse me espera mais a frente, desvio-me com uma vírgula, engano uma prosopopeia e sou envolvido por odiosas ressonâncias verbais, descanso sobre reticências, quando ouço o tam-tam das interjeições pejorativas emitidas por sujeitos ocultos por elipses apocopes, escapo pela picada do eufemismo paru para respirar no fim de um período simples, avanço pela pedreira dos metaplasmos, luto com apofonias, salto o pantanal dos cacófagos e esbarro em cacografias empurro cacologias me arrasto pela cacoeteira estou sufocado de exaustão diante de uma centena de substantivos promíscuos já desespero quando vejo um lugar-comum e chego ao ponto final


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Uemura Shoen


Walt Whitman

Eu penso que poderia retornar e viver com animais, tão plácidos e autocontidos; eu paro e me ponho a observá-los longamente. Eles não se exaurem e gemem sobre a sua condição; eles não se deitam despertos no escuro e choram pelos seus pecados; eles não me deixam nauseado discutindo o seu dever perante Deus. Nenhum deles é insatisfeito, nenhum enlouquecido pela mania de possuir coisas; nenhum se ajoelha para o outro, nem para os que viveram há milhares de anos; nenhum deles é respeitável ou infeliz em todo o mundo. 






quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Phantom Water Edit by Chris Bryan


PHANTOM WATER EDIT from Chris Bryan on Vimeo.

Isabel Allende

"Minha mãe era uma pessoa silenciosa, capaz de dissimular-se entre os móveis, de perder-se no desenho do tapete, de não fazer o menor ruído, como se não existisse; contudo, na intimidade do quarto que dividíamos, ela se transformava. Começava a falar do passado ou a narrar suas histórias, e então o aposento se enchia de luz, desapareciam as paredes, dando lugar a incríveis paisagens, palácios abarrotados de objetos nunca vistos, países longínquos inventados por ela ou tirados da biblioteca do patrão; colocava a meus pés todos os tesouros do Oriente, a lua e mais ainda. reduzia-me ao tamanho de uma formiga, para eu sentir o universo a partir da minha pequenez, punha-me asas para vê-lo a partir do firmamento, dava-me uma cauda de peixe para conhecer o fundo do mar." 


terça-feira, 25 de outubro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Nazca - Peru


Água Viva - Clarice Lispector

Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. Para me interpretar e formular-me preciso de novos sinais e articulações novas em formas que se localizem aquém e além da minha história humana. Transfiguro a realidade e então outra realidade, sonhadora e sonâmbula, me cria. E eu inteira rolo e à medida que rolo no chão vou me acrescentando em folhas, eu, obra anônima de uma realidade anônima só justificável enquanto dura a minha vida. E depois? depois tudo o que vivi será de um pobre supérfluo. Mas por enquanto estou no meio do que grita e pulula. E é sutil como a realidade mais intangível. Por enquanto o tempo é quanto dura um pensamento."  


domingo, 23 de outubro de 2011

Father and Daughter

Manoel de Barros - Retrato do artista quando coisa

Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.



Attilio Baccani -Italia, 1844-1889


Alberto Caeiro

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...


sábado, 22 de outubro de 2011

Millor Fernandes

"Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Pelo mundo que temos, parece que o melhor mesmo ainda é a caligrafia."


quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Midnight Sun | Iceland


Midnight Sun | Iceland from SCIENTIFANTASTIC on Vimeo.

Perspectivas


O Apanhador de Desperdícios - Manoel de Barros


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.



domingo, 16 de outubro de 2011

Millor Fernandes

Incapaz de dominar suas mais mesquinhas paixões, sem controle do próprio egoísmo, tolo, tonto, sofrido,  inseguro e criminoso, o homem lança suas derradeiras ambições para a posteridade, quando será imantado numa glória a que não assistirá, mitificado naquilo que nunca foi. E sua ânsia de nobreza é colocada em ser esplêndido em cinzas, faustoso em túmulos, solenizando a morte com incrível esplendor, transformando em cerimônia e pompa toda a estupidez de sua natureza.


change the world

Tamanho não é Documento


sábado, 15 de outubro de 2011

Vinte mil léguas submarinas (1870) - Julio Verne

(...) "A refeição era composta por pratos de origem marinha e de outras iguarias cuja natureza e origem eu ignorava completamente. Eram todos bons, embora tivessem um sabor estranho. No entanto, habituei-me com facilidade a ele.
Para não fazermos toda a refeição em silêncio, provoquei-o com o seu assunto predileto:
- O capitão ama o mar - falei-lhe.
- Sim, amo-o. O mar é tudo. Cobre sete décimos do globo terrestre. O seu hálito é são e puro. É um imenso deserto onde o homem nunca está só. O mar é o veículo de uma existência sobrenatural e prodigiosa. É movimento e amor. É o infinito vivo, como afirmou um dos seus poetas. Nele reina a suprema tranqüilidade. O mar não pertence aos déspotas. Ah! o senhor professor deveria viver no seio dos mares! Só aí há independência. Aí não reconheço amos! Sou livre!"

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ivan Lessa - A Crônica

Crônica, do grego chrónos, tempo, cronicar, feito Tácito, relatar o tempo ou tempos. Por que nós, brasileiros, fizemos do gênero especialidade da casa — feito muqueca de peixe ou tutu à mineira? Eu, pela parte que me cabe — e é pouquíssima a parte que me cabe —, eu tenho minhas teoriazinhas. Primeiro lugar, porque nós trabalhamos bem com poucas armas, isto é, Euclides da Cunha à parte, nosso fôlego literário é curto. Não há nenhum demérito nisso. Se a América Latina fornece caudalosos escritores, como Vargas Llosa, Roa Bastos e Alejo Carpentier, nós, por outro lado, somos excelentes no pinga-pinga do conto: o próprio Machado de Assis, Lima Barreto, Alcântara Machado, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, Rubem Fonseca. Segundo lugar, porque nós temos consciência da extraordinária violência com que o tempo vai levando as coisas e as gentes, daí a necessidade de registrar, de alguma forma, o que se passou e passa no âmbito pessoal e intransferível. Terceiro lugar, em conseqüência disso que acabei de falar: somos muito pessoais, vemos e vivemos muito a nossa vida e a celebramos quase que no próprio instante em que ela se passa. A crônica é a nossa autobustificação, por assim dizer. Ou, em termos da realidade atual: é a nossa autonomeação para assessor disso ou secretário daquilo outro. E em quarto e último lugar: dinheiro. Não há motivo nenhum para se ficar encabulado. Quem não escreve por dinheiro não é digno da profissão. Um romance vende cinco mil exemplares e o autor, com alguma sorte, pega o equivalente a uns tantos salários mínimos. Se dividirmos tempo gasto no trabalho e na vida de estante do livro, vai dar nisso mesmo: salário mínimo. O cronista, por outro lado, mesmo mal pago — e quando é bom não é esse o caso —, tem uns cobres garantidos no fim do mês, se o empregador for bom pagador. Conseqüentemente: aí está, viva e atuante, a crônica do cronista brasileiro. Pouco importa que o cronista ou a cronista limite-se a relatar seu encontro no bar ou sua ida ao cabeleireiro. Tanto faz que seja elitista ou literariamente limitador. E daí que tenha menos profundidade que mergulhadores mais audazes como Milan Kundera e Marion Zimmer Bradley? A crônica vai registrando, o cronista vai falando sozinho diante de todo mundo.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Guillaume Delaunay


The Tadpole from Passion Pictures on Vimeo.

Vôo


Luis Fernando Veríssimo

Li que no Talmude existe a história dos 36 homens justos que salvam o mundo da destruição. Segundo a tradição mosaica, a cada momento determinado da História vivem na Terra 36 homens cuja retidão de caráter impede Deus de fechar a mão e nos aniquilar. Os 36 podem estar espalhados pelo planeta, não se conhecerem entre si e não conhecerem o seu próprio poder, mas sua existência e o seu comportamento decidem o nosso destino. Se não fosse pelos 36, Deus desistiria de nós. Por que 36? Não sei. Também não sei se há algum tipo de flexibilidade divina. Se Deus aceita, por exemplo, 35 éticos e um que, vá lá, passou a mão na empregada ou na caixa da firma, mas hoje está arrependido, ou se o Talmude esclarece esse ponto. O fato é que a simples sobrevivência da Humanidade, apesar de tudo que ela já aprontou, é prova de que há pelo menos 36 homens justos no mundo, neste momento. Deus os conhece. Deus os conta todos os dias. Mesmo quem não segue o Talmude só pode torcer para que esta conjunção mágica não se desfaça, que nunca faltem homens justos no mundo em número suficiente para evitar nossa destruição. O mesmo vale para o Congresso brasileiro: só a existência presumida de um mínimo de 36 exceções à mediocridade, à venalidade ou à canastrice explicaria que um raio ainda não tenha destruído as duas casas. Os presumidos 36 preservam a instituição e, mais importante, preservam nosso amor-próprio, pois maus congressos significam maus eleitores. Nenhum congressista brotou da sua cadeira, foram todos postos lá por um de nós, o povo. Os presumidos 36 nos redimem. Quem são eles? Deus os conhece. Deus os conta todos os dias.